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"Um dia no Sabizanga" - Luanda, 1973
Colocado por: josé eduardo marques 23.05.2020 - 18:55
"Um dia no Sabizanga" - Luanda, 1973

Venho do Sabizanga, de lá ter passado o dia.
Vi bocas à procura de pão, vi mãe brigar com filha.
Venho do Sabizanga, mais revoltado com a guerra
Que me atormenta.
Esta arma que transporto, poderá matar corpos d’outros.
Mas é comigo que rebenta.
Tenho a imagem da angústia
Das crianças pobres e doentes,
Que sem roupa e sem sorrisos
Soluçam vida entredentes.
Venho do Sabizanga, cabisbaixo, pensativo,
Enojado com a repressão;
Cansado de pertencer a um bando inocentemente opressivo.
Das palhotas amontoadas, onde se amontoam seres vivos.
São carreiros de cabras, as avenidas dos nativos.
É mandioca com mandioca,
A mandioca daquela gente.
Os sonhos repetidos em cada noite,
São questões prostradas sem resposta.
Cada vaga de chuva tropical
É um obrigar a construir nova palhota.
A dor já não é dor.
Pois só há dor se houver prazer.
O sofrer é uma constante,
O prazer é um pouco menos de sofrer.
O dormir dos olhos vivos daquela gente morta,
É um esperar contínuo
Duma baioneta na porta que não é porta.
À criança do Sabizanga,
Meu olhar suplicou compreensão,
Seus olhos percorreram meu corpo
E disseram: não é com menino soldado
Que menino negro se zanga.

1 Comentário

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